quinta-feira, 14 de maio de 2015



A falácia da 'freada de arrumação'

Quando até o FMI faz autocrítica da austeridade, a tentativa de reproduzir o estratagema lulista sinaliza que o governo perdeu o rumo da mudança.

08/05/2015 - Copyleft

Leda Maria Paulani
Marcelo Camargo / ABr
No ambiente conturbado em que transcorreu o segundo turno das eleições presidenciais de 2014, escrevi um pequeno artigo para o site Carta Maior intitulado “Terrorismo Econômico”. Argumentei ali que o clima que o país vivia assemelhava-se muito ao clima existente 12 anos antes, em 2002, quando se colocava claramente a possibilidade de Lula chegar à presidência da República, na disputa com José Serra, do PSDB. Lembrei que como isso não era então do agrado das forças financeiras que haviam protagonizado os dois mandatos de FHC, instalara-se um clima de terror, que operava em todas as frentes, da mídia aos agentes do mercado, das análises “científicas” dos doutores das universidades às peripécias internas do próprio Banco Central. Assim, mesmo com a Carta aos Brasileiros em que Lula prometia continuar a política econômica em curso e os juros elevados que irrigavam os ativos dos credores, a ideia de que a economia iria se desfazer como gelatina e “sair do controle” na hipótese de Lula vencer, foi se disseminando com força. Observei, na sequência, que, se não havia naquela época razão para tamanho alarde, muito menos havia no final de 2014, com a economia brasileira apresentando parâmetros macroeconômicos muito melhores que em 2002. Depois de percorrer alguns desses parâmetros, inclusive com comparações internacionais, mostrei que o terrorismo se explicava pelo absoluto horror que os mercados financeiros tinham da candidata Dilma Rousseff, horror justificado pelo progressivo afastamento da ortodoxia econômica levado a efeito pelo governo da presidenta e pela coragem que ela então tivera de afrontar os interesses financeiros, retirando Meirelles da presidência do Bacen, baixando a taxa de juros e utilizando os bancos públicos para forçar a redução dos vergonhosos spreads bancários praticados no país. Concluí por fim com a esperança de que, diferentemente do que ocorrera em 2002, quando o terrorismo fora funcional mesmo após as eleições, levando o governo recém-eleito, supostamente de esquerda, a beijar a cruz do neoliberalismo, desta vez, a política econômica se libertasse de vez dos ditames da ortodoxia e retomasse o enfrentamento dos interesses financeiros, tão lesivos aos interesses da maioria da população.  
A capitulação do terrorismo econômico
 
Mesmo antes de o calendário mostrar o início do segundo mandato da presidenta, já estava clara a frustração dessa esperança. Embaralhado com a comoção causada pelas revelações de esquemas de corrupção na Petrobrás, o terrorismo foi e está sendo mais funcional do que nunca. Os interesses financeiros, além de “produzirem”, nas estripulias cotidianas dos mercados, os resultados ruins que alardeiam, fizeram o ministro da Fazenda, e vêm sendo muito bem-sucedidos, com o auxílio de sempre da mídia, em demonstrar que a política de austeridade proposta é a única saída para o país. Vendida como remédio amargo que a sociedade tem de engolir para voltar a crescer, sua defesa vem acompanhada do discurso de sempre, com sabor de sermão dominical, de que esquecemos a lição de casa, demos o passo maior que a perna (muito gasto em programas sociais, em incentivos econômicos...), perdemos, enfim, a credibilidade. Assim, uma “freada de arrumação” tornar-se-ia indispensável para “pôr ordem na casa” e retomar o crescimento.
 
Sem entrar neste texto na discussão sobre as razões dessa rendição total do segundo período da presidenta a esse discurso, investiguemos os dados. A principal razão da gritaria dos mercados é o resultado das contas públicas. Pela primeira vez, desde 2002, esse resultado, em 2014, foi negativo em R$ 32,5 bilhões, ou 0,59% do PIB. Em 2013, por exemplo, fora positivo em R$ 91,3 bilhões, ou 1,8% do PIB. Qual a importância desse dado, ou seja, por que os mercados mostram-se tão interessados nele? O interesse está em que a existência do assim chamado superávit primário é um indicador da economia de recursos feita pelo governo e destinada ao pagamento do serviço dessa dívida. Daí serem as contas públicas mensuradas pelo conceito primário, ou seja, sem incluir no cômputo das despesas os gastos relativos aos juros que têm de ser pagos aos credores do Estado, que são os agentes que carregam em seus portfólios de ativos os títulos governamentais. Se o superávit primário não existe, pior, se o resultado primário é negativo, isso significa que é preciso um aumento do endividamento público para que o governo obtenha os recursos necessários para o enfrentamento dessas despesas.
 
Do ponto de vista da dívida pública propriamente dita, o indicador que os mercados utilizam para fazer suas avaliações é a relação dívida/PIB. Nos últimos 8 anos, medida em termos brutos (ou seja, sem descontar as reservas cambiais e os títulos públicos à disposição do Banco Central), essa relação no Brasil ficou na média dos 57%. Isso é muito ou é pouco?  Quando olhamos os dados dos países mais desenvolvidos, percebemos o quanto de histeria interessada há na afirmação de um descalabro das contas públicas e da necessidade de uma “freada de arrumação”. Essa mesma relação é em média de cerca de 90% nos países da zona do euro, Reino Unido e Canadá, de 100% nos EUA e de 230% (isso mesmo, 230%!) no Japão. Isto posto, qual é a tragédia se essa relação tiver de crescer por força do resultado primário negativo de 2014?  
 
Uma outra questão é perguntar pela efetividade da política de gastos em seu objetivo de manter o crescimento, o emprego e a renda, questão complicada, como sabemos, pelos resultados ruins em termos de produto que foram obtidos (crescimento de apenas 0,1% em 2014), mas esse é outro problema. O que nos interessa aqui, por ora, é defender o princípio da intervenção do Estado para a manutenção do emprego e da renda, mesmo que isso implique a necessidade de uma elevação na relação dívida/PIB. Não é demais também relembrar que esses dados de dívida referem-se ao conceito bruto, ou seja, sem que se deduza daí a dívida implícita no carregamento dos quase 400 bilhões de dólares de reservas internacionais que o país hoje possui e os títulos públicos na carteira do BC. Isso considerado, ou seja, tomando-se a dívida em seu conceito líquido, a relação dívida/PIB cai para a esfera dos 34%, o que torna ainda mais disparatado o barulho em torno do pequeno resultado primário negativo de 2014.
 
Outros dados poderiam ser analisados, como aqueles referentes à questão inflacionária ou ao déficit nominal em relação ao PIB, levando à mesma conclusão, ou seja, de um overshooting deliberado de apreciação negativa da situação econômica do país (em suma, terrorismo econômico) com o objetivo exclusivo de apresentar as políticas de austeridade como a única saída possível. Analisando a situação de forma objetiva e sem a presença de interesses econômicos disfarçados de avaliação científica, o país enfrenta hoje, de fato, do ponto de vista macroeconômico, dois problemas graves, cuja natureza, porém, difere bastante, seja em termos de dinâmica, seja em termos de timing, do descalabro econômico que povoa as análises ortodoxas reproduzidas incansavelmente pela mídia. Vejamos quais são eles e se a “freada de arrumação” poderá resolvê-los.
 
Quais são os verdadeiros problemas?
 
O primeiro problema realmente sério é o resultado das contas externas. O déficit de transações correntes do Balanço de Pagamentos ultrapassou os 90 bilhões de dólares em 2014. É verdade que esse resultado é historicamente negativo por força dos volumosos pagamentos de juros, lucros e dividendos que caracterizam a economia brasileira. Assim, mesmo nos períodos em que a balança comercial alcança resultados muito positivos, o resultado total das contas correntes é quase sempre negativo, ou, na melhor das hipóteses, apenas ligeiramente positivo. Contudo, a magnitude que esses resultados negativos vêm alcançando de 2010 para cá, indo para a esfera dos quase 100 bilhões de dólares anuais, é realmente preocupante. Isso significa, sob pena de vermos nossas reservas minguarem em pouco tempo, que necessitaremos crucialmente de resultados de magnitude semelhante na Conta Financeira, resultados que dependem da disposição dos agentes externos de investirem no país, ou, em outras palavras, do instável humor dos mercados.
 
Na explicação desse resultado tão ruim duas causas se combinam: o nível extremamente valorizado de nossa taxa de câmbio e a reversão da situação internacional. Com relação ao primeiro ponto, é preciso lembrar que, com exceção de poucos e muito curtos períodos, o valor de nossa moeda, justamente em virtude da vitória do discurso e das políticas econômicas de cunho neoliberal, tem ficado muito acima do razoável desde pelo menos 1994, ou seja, há mais de vinte anos. Isso teve e tem consequências drásticas para os resultados da balança de transações correntes. Se depois de 1999 — momento da maior crise cambial do país — esses resultados não tinham se apresentado com tamanha gravidade, isso ocorreu simplesmente pela existência de uma conjuntura internacional benfazeja, que não só puxava nossas vendas externas do ponto de vista quantitativo, como inflacionava em dólares os preços das commodities que o país majoritariamente exporta (o minério de ferro é o exemplo paradigmático), compensando assim a valorização do Real com os preços mais elevados em dólar dos produtos vendidos ao exterior. É essa conjuntura externa muito favorável que começa a se alterar depois da grande crise internacional do final de 2008, e que reverte de vez a partir de 2013.
 
Com essa inversão da conjuntura, à qual se associa agora a elevação das taxas de juros americanas, diminui a probabilidade de que apareçam os resultados necessários na Conta Financeira, apontando para um cenário de déficits globais no balanço de pagamentos nos próximos anos. É esse um dos fortes argumentos do discurso da austeridade no sentido da necessidade de “recuperar a credibilidade”, pois que, sem ela, esses movimentos de capital, que são autônomos e dependem dos humores do mercado, não se dariam na direção do país. Sem entrar no mérito da afirmação — que é discutível, visto supor que, nesses movimentos, o elemento determinante é sempre o interno — o que importa destacar é a necessidade imperiosa de que o país não mais dependa desses humores, ou seja, que se recupere o nível normal, em torno do equilíbrio, dos resultados das contas correntes.  Para tanto, o fator crucial é que se ponha fim à sobrevalorização cambial. Como o Brasil adota o regime de câmbio flutuante, em que o preço da divisa é ditado pelo mercado, torna-se necessário reforçar os mecanismos de controle dos fluxos de capital já existentes e criar novos, para que os humores do mercado não desestabilizem permanentemente esse preço e para que seja possível mantê-lo no nível correto do ponto de vista da necessária performance dos fluxos de renda e das exportações de bens e serviços.
 
A política de austeridade ora defendida não produzirá nenhum desses resultados, bem ao contrário. Em primeiro lugar a adoção de mecanismos de controle dos movimentos de capital é vista como algo que denigre a credibilidade do país, pois que ofende a sacrossanta liberdade dos fluxos financeiros. Além disso, se a recuperação da credibilidade, que viria na esteira da adoção das políticas de austeridade, implicar o recebimento de um volume ainda maior de recursos pela conta financeira, isso virá acompanhado inevitavelmente de uma reapreciação do valor de nossa moeda, prejudicando ainda mais a situação já quase insustentável dos déficits em transações correntes.               
 
Mas a situação recorrentemente apreciada do valor de nossa moeda teve e tem consequências drásticas também para o nosso outro problema, o da retomada do crescimento e da recuperação do nível de investimento. A relação Formação Bruta de Capital Fixo/PIB, ou seja, a proporção do produto que resulta de Investimentos, anda pela casa dos 17%, extremamente baixa para desencadear um processo de crescimento sustentado a médio e longo prazos (para se ter uma ideia, a mesma taxa na China anda pela casa dos 30%). É bem verdade, mais uma vez, que essa participação tem estado nesse nível baixo já há muito tempo, tendo sido raros, desde o início dos anos 1990, os momentos em que ultrapassou os 20%. A dificuldade agora, porém, está em que as variáveis alternativas que, ao longo dos últimos anos, foram substituindo os investimentos como fonte de demanda agregada e de crescimento econômico estão hoje todas comprometidas. Desde o segundo mandato de Lula, o crescimento veio se baseando numa espécie de roda que gira ao contrário, ou seja, primordialmente no consumo, estando esse, por sua vez, assentado na expansão do crédito. Ora, a expansão do crédito ao consumidor tem um limite natural na massa salarial e complica-se de vez quando as expectativas são de estagnação de salários e de nível de emprego. Com o crédito crescendo a taxas mais reduzidas, ou mesmo se reduzindo, o consumo, assentado nas mesmas variáveis também deixa de se expandir. A outra variável da demanda agregada que pôde funcionar como substituta do investimento foi a demanda externa líquida, em função da situação internacional anormalmente favorável ao país e que já se reverteu. Além disso, a apreciação continuada da nossa moeda foi inviabilizando, ao longo dos últimos 20 anos, inúmeros setores da indústria, o que acabou por reduzir estruturalmente as possibilidades de a demanda externa voltar a desempenhar esse papel.
 
Qual será o impacto das políticas de austeridade sobre o problema do crescimento e da necessária elevação do nível de investimentos da economia? Comecemos com estes últimos. Não é preciso muita argúcia para concluir que uma política que se baseia em elevação de juros e corte de gastos do governo, com consequente redução dos investimentos públicos, não pode funcionar como dinamizadora do nível de investimentos. Além disso, o próprio overshooting de apreciação pessimista, que faz parte da escandalosa campanha pela austeridade fiscal (terrorismo econômico, em suma), produz consequências funestas para as expectativas, que é a segunda principal variável, ao lado da taxa de juros, a determinar a disposição de investir.   
 
Se o investimento, que é a variável mais autônoma e mais dinâmica da demanda agregada, permanece reduzido, com tendência a ficar ainda mais deprimido, as possiblidades de as políticas de austeridade jogarem a favor da retomada do crescimento ficam comprometidas de per si.
 
Mas vejamos, de qualquer forma, que impacto elas poderiam ter sobre as outras variáveis. Do ponto de vista do consumo, uma política que corta gastos em programas sociais, que têm geralmente enorme efeito multiplicador, só fará reforçar a tendência de estagnação dessa variável, já complicada por força do elevado nível de endividamento das famílias. Além disso, as expectativas ruins para o próprio crescimento econômico, com as consequentes expectativas negativas para os níveis de emprego e salários reais, também ajudam a deprimir o consumo. No que tange à demanda externa, a política de juros elevados refreia a única tendência hoje favorável ao crescimento, que é a desvalorização da moeda brasileira, ora em curso. Esse movimento é o único que pode de alguma forma vir a compensar a reversão da situação internacional, fazendo com que a demanda externa volte a ganhar alguma proeminência como variável dinamizadora do crescimento. Portanto, desse ponto de vista, o sucesso das políticas de austeridade implicará a continuidade do desastre nas contas externas que vimos de acompanhar. Finalmente, os gastos do governo, que em si e por si deveriam poder funcionar como a variável de ajuste a compensar a tibieza do investimento e consumo privados, constituem justamente o objeto número um das tesouras afiadas, e cegas, do atual Ministério da Fazenda.
 
Como se percebe, não há a menor possibilidade de as políticas de austeridade virem a ter algum impacto positivo do ponto de vista do investimento e do crescimento. Como os próprios defensores dessas políticas sabem que é difícil demonstrar o contrário, a ideia de uma “freada de arrumação” torna-se necessária, pois ela faz crer que o remédio amargo de agora será sucedido rapidamente pelas benesses do pleno restabelecimento. O discurso é falacioso porque, com políticas desse tipo, a economia, já estagnada, entra num círculo vicioso de descenso cuja reversão pode levar muito tempo. O cenário é ainda mais desolador por força da complicada situação externa — volume de comércio em baixa, preços das commodities em baixa, elevação dos juros americanos, o que tende a tornar o movimento de descenso ainda mais forte e demorado. A estratégia de 2003, que agora se tenta repetir — remédio amargo no início, crescimento para depois, contou com uma conjuntura política muito menos complicada e com um cenário econômico internacional em ritmo veloz de crescimento.
 
A par da força dos mercados, sempre avassaladora quando encontra vassalagem, a tentativa de reproduzir o estratagema lulista sinaliza a fraqueza de um governo que, tão promissor em suas primícias, parece ter perdido o rumo da mudança. Quando até o FMI faz autocrítica das políticas ditas de austeridade, que mais dizer de tamanho recuo?
 
 
Leda Maria Paulani é Professora Titular do Departamento de Economia da FEA-USP


Créditos da foto: Marcelo Camargo / ABr





Amauri Spadari - 13/05/2015
O FATO é que "socam" goela abaixo do povo aumentos abusivos nas contas de luz, impostos, serviços públicos e tudo mais que é controlado pelas grandes corporações, e o salário achatadíssimo com a falsa inflação de 6,5%. VIVEMOS UM FASCISMO NACIONAL E GLOBAL!

José Arigo da Silva - 11/05/2015
Perfeita a conclusão, cara Profa. Leda Maria. O recuo é de uma crueldade e de uma falta de espinha(coluna vertebral) ímpares. Entretanto faço duas restrições ao seu texto, data venia, se me permite e salvo melhor juízo. 1.O recuo é a cara de Dilma. Não se poderia esperar outra coisa depois do primeiro governo dela. Que Dilma é tucano-neoliberal fica evidente pelos seus elogios a FHC e por outra medida cruel, desnecessária dela, tudo no primeiro governo: falo do seu "tremendo sucesso", com amplo apoio de congressistas, no começo do seu segundo ano, em FEV-2012: acabou com a aposentadoria integral dos servidores do regime jurídico único. Menos a dos militares, que continua. Retrocesso enorme.Fim de caminhada. Divisor de águas. Só não viu quem não quis. E poucos quiseram ver. Ora bolas, gastando 50% do orçamento com juros e só 10% com pessoal é muita covardia fazer o que ela fez. Com aplausos de Folha de S. Paulo em editorial e dos coveiros de sempre. Bate nessa ponto, minha ilustre Professora. 2. Meu segundo reparo de seu magnífico texto é algo controverso. Mas, me perdoe, pra mim, nossa moeda tem de valer o que vale o dólar, ou melhor, a moeda internacional de referência. Por que eu vou logo de saída dizer que diante do mundo eu posso comprar pouco? Por que eu vou onerar as importações que preciso fazer? Quem foi que disse que com minha moeda fraca meus exportadores ganham mais, se seus custos aumentam com o aumento da moeda internacional? E os meus cientistas, que ficam proibidos de comprar livros no exterior; de assinar revistas técnicas e tomar parte em associações internacionais, americanas e de outros países? Não, minha cara Professora, não é só com dólar alto que impeço a compra de porcarias e bugigangas no exterior. O tempora o mores.

Milton Campanario - 11/05/2015
Cara amiga Leda. A questão é a quebra de credibilidade de tal matriz alternativa do Guido/Dilma. Os preços administrados são mesmo administrados, mas não para afundar uma empresa como a Petrobrás. A contabilidade criativa e pedaladas expõem o governo a coisas como plataformas da petrolífera exportadas e uma saída de 42 bilhões para cobrir os serviços prestados por ela no exterior, sendo que ela está aqui. Ademais, tal matriz vai criar uma classe média por meio do consumo, sem um investimento sistemático em saneamento, educação e saúde, bens de consumo coletivo, o que deveria estar na base desta matriz. Não está. Não creio que esta arrumada nas contas irá ajudar pois o custo político e social é alto demais, para todo o país. Infelizmente, muito do que foi feito por esta matriz tinha cunho eleitoral e jogou a economia brasileira neste caos que espero ver superado, para o bem dos mais pobres. Seria o caso do Perceu Abramo publicar uma versão completa desta matriz pois como foi desenhada por Dilma e Guido não dá para confiar e ter um debate a altura. Há que ter componentes ditos liberais coo maior atração aos investimentos estrangeiros, quebra no conteúdo nacional e investimentos sociais. Boa sorte.

Milton Campanario - 09/05/2015
Minha querida colega Leda. Vejo que mais do que austeridade, a grande questão é a credibilidade abalada pela denominada "matriz econômica" criada pela dupla Dilma/Guido. Há duas alternativas de explicação: 1) Houve de fato uma falta de sensibilidade na implantação de tal matriz, calcada principalmente no gasto das famílias e do Governo, no emprego inflacionado do setor de serviços. Não houve atenção nos investimentos diretos (nacionais e estrangeiros) e o no comprometimento irresponsável frente as tarifas administradas; 2) A culpa é da crise externa e do PIG. Fico com a primeira. Há uma lenta mas segura recuperação dos números dos emergentes e mesmo dos países avançados, com o Brasil se descolando deste cenário. A outra questão é como colocar um ultra-liberal para comandar a economia em movimento oposto ao que foi defendido durante todo o ano passado. Triste cenário econômico e infeliz destino político.







A disputa pelo pré-sal

8/05/2015 - Copyleft
 Mauro Santayana
Mauro Santayana
A disputa pelo pré-sal
A Petrobrás, que acaba de ganhar o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, é novamente questionada no pré-sal.

Os jornais voltam a anunciar que se discute, dentro e fora do governo, o fim da atuação da Petrobrás como operadora exclusiva do pré-sal, com fatia mínima de 30%.

Alegam seus adversários, entre outras coisas, que seria inviável para a Petrobras continuar a explorar o petróleo do pré-sal com a baixa cotação atual do barril no mercado global, quando a produção oriunda dessa área cresceu 70% em março e se aproxima de 500 mil barris por dia.

Ora, se a Petrobrás, que acaba de ganhar (pela terceira vez) o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, nos EUA, justamente pelo desenvolvimento de tecnologia própria para a extração do óleo do pré-sal em condições extremas de profundidade e pressão, estaria tendo prejuízo na exploração desse óleo, porque as empresas estrangeiras, a quem se quer entregar o negócio, conseguiriam ter lucro como operadoras, se não dispõem da mesma tecnologia?

Se a Petrobras explora petróleo até nos Estados Unidos, em campos como Cascade, Chinook e Hadrian South, onde acaba de descobrir reservas de 700 milhões de barris, em águas territoriais norte-americanas do Golfo do México, porque tem competência para fazer isso, qual é a lógica de abandonar a operação do pré-sal em seu próprio país, onde pode gerar mais empregos e renda com a contratação de serviços e produtos locais, e o petróleo é de melhor qualidade?

A falta de sustentação dessa tese não consegue ocultar seus principais objetivos. Se quer aproveitar uma “crise” da qual a empresa sairá em poucos meses (as ações com direito a voto já se valorizaram 60% desde janeiro; o balanço foi apresentado com enormes provisões para perdas por desvios de R$ 6 bilhões, que delatores “premiados”, cuja palavra foi considerada sagrada em outros casos, já negaram que tenham ocorrido; a produção e as vendas estão em franco crescimento) para fazer com que o país recue no regime de partilha de produção, de conteúdo nacional mínimo, e na presença de uma empresa nacional na operação de todos os poços, para promover a entrega da maior reserva de petróleo descoberta neste século para empresas ocidentais, como a Exxon, por exemplo, que acaba de perder, justamente para a Petrobras, o título de maior produtora de petróleo do mundo de capital aberto.

Como ocorreu na década de 1990, se cria um clima de terror para promover a entrega de uma das últimas empresas sob controle nacional ao estrangeiro.

Enquanto isso não for possível, procura-se diminuir sua dimensão e importância, impedindo sua operação na exploração de reservas que são suas, por direito, situadas em uma área que ela descobriu, sozinha, graças ao desenvolvimento de tecnologia própria e inédita e à capacidade de realização da nossa gente.








A democracia, o financiamento empresarial e a corrupção

A nossa democracia não pode depender do dinheiro de bancos, empreiteiras e outras empresas. Não há democracia digna que possa nascer desse sistema.

14/05/2015 - Copyleft

Miguel Rossetto
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
A Câmara Federal vai decidir novas regras para o nosso sistema político. Essa agenda é a mesma do Chile. Em abril, a presidente Michele Bachelet, apresentou ao Congresso o fim do financiamento empresarial, limite de doação para pessoas físicas, redução de gastos de campanha e reorganização dos partidos. No Chile, assim como no Brasil, essas propostas emergem em meio a escândalos de corrupção e instabilidade política.
 
O financiamento empresarial da política e a corrupção caminham juntos. Essa é a percepção da sociedade civil, encabeçada por CNBB, OAB, UNE e a CUT, que lutam pela proibição do financiamento empresarial de partidos e candidatos.
 
A promiscuidade entre o setor público e as empresas privadas tem sua origem nas campanhas eleitorais. O financiamento empresarial, além de estabelecer laços suspeitos entre financiadores e eleitos, limita o acesso dos que têm menor poder econômico, aumentando a distância entre os representantes e a sociedade. Sequestra uma das regras básicas da democracia – igualdade na disputa eleitoral – e corrói a transparência dos partidos.
 
A nossa democracia não pode depender do dinheiro de bancos, empreiteiras e outras empresas. Não há democracia digna que possa nascer desse sistema. Os aportes empresariais nas eleições brasileiras representam mais de 90% do que os partidos arrecadam; em 2014 ultrapassaram R$ 5 bilhões. Uma única empresa doou R$360 milhões! Se os parlamentares não mudarem radicalmente esse modelo não serão eliminadas as causas da corrupção que desvia recursos públicos que deviam ser investidos para melhorar a qualidade da saúde, da educação e da segurança.
 
A grave crise do sistema político exige posição clara. A reforma política deve enfrentar o mal pela raiz: proibir o financiamento empresarial de partidos e candidatos. Soaria estranho à sociedade que os congressistas não ponham fim a uma regra que favorece suas próprias eleições. Com campanhas mais baratas e representantes eleitos por compromissos e ideias e não por dinheiro, teremos uma democracia e uma República melhores para o Brasil.
 
Miguel Rossetto é Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, foi vice-governador do estado do Rio Grande do Sul







A regra é clara: Marta Suplicy tem que perder o mandato

As desavenças de Marta com o PT, são pragmáticas, e não programáticas. É briga por espaço político e pela disputa à prefeitura de São Paulo em 2016.


3/05/2015 - Copyleft

Antonio Lassance (*)
Geraldo Magela / Agência Senado
O PT de São Paulo, por meio de uma decisão unânime da Executiva Estadual, vai pedir que Marta Tereza Suplicy seja destituída do cargo de senadora. Marta havia formalizado o pedido de desfiliação do PT em uma carta entregue no final de abril.


O que acontece quando alguém, eleito por um partido, desfilia-se e, depois, troca de legenda? De quem é o mandato?


O mandato é do partido e do candidato. Em uma eleição, ambos estão unidos como num casamento. Quando alguém decide se separar, ou isso é feito de forma amigável ou é a Justiça Eleitoral quem resolve o litígio.


Marta Suplicy, embora entenda bem de casamento e separação, acha que o mandato é dela e ninguém tasca. As pessoas votaram nela por causa de seus belos olhos azuis, ora bolas!


Se Marta não estivesse filiada ao PT naquelas eleições de 2010, será que realmente teria sido eleita? Por que partido? Em que coligação? Com que estrutura de campanha e tempo de rádio e televisão? Com que apoios contaria? Teria ela conseguido mais votos que Netinho de Paula, do PC do B, que ficou em terceiro lugar, muito próximo de ultrapassá-la? Difícil saber. Marta finge ter certeza.


A decisão agora cabe à Justiça, e a regra é clara, dada por duas resoluções do Tribunal Superior Eleitoral: a Resolução-TSE nº 22.610, de 25/10/2007; e a Resolução-TSE nº 22.733, de 11/3/2008.


Se os ministros dos tribunais eleitorais irão ou não respeitá-la e votar do jeito como fizeram em outras ocasiões, são outros quinhentos. Quem dita a regra também faz o casuísmo, única esperança que restou a Marta Suplicy.


Pela norma, a senadora deu razões de sobra para ser destituída de seu cargo e ser substituída, provavelmente, pelo segundo suplente, Paulo Frateschi, pois o primeiro suplente, Antonio Carlos Rodrigues, é o atual ministro dos Transportes. Nada demais, considerando que Marta foi substituída o tempo todo por um suplente enquanto foi ministra.


As resoluções do TSE dizem que sujeita-se à perda do cargo eletivo quem se desfilia sem uma "justa causa". Consideram-se justas causas de desfiliação: quando o partido se incorpora a outro, desagradando ou constrangendo o eleito; ou quando surge um partido novo e abre-se a chamada "janela" para o troca-troca partidário. Marta, que pretende se filiar ao PSB, não se enquadra em nenhum dos dois.


As razões que a ex-petista ensaia invocar são a mudança substancial ou desvio do programa partidário e discriminação pessoal.


Em sua carta pedindo a desfiliação, Marta acusa o PT de ter se distanciado completamente dos fundamentos com que foi construído e, também, reclama de estar vivendo o pior momento de sua carreira política, tendo que defender, constrangida, o que não acredita.


O primeiro é até um bom argumento, mas é para quem pode, e não para quem quer. Nesse tempo todo em que o PT teria se desviado de seu rumo original, o que fez Marta Suplicy? Virou prefeita, ministra do Turismo, ministra da Cultura e Senadora pelo PT. Pelo menos no caso de Marta, os tais desvios que ela acusa só podem lhe ter servido de corrimão.


O senador Paulo Paim (PT-RS), vez por outra, protagoniza discordâncias públicas com o PT. Criticou, bateu o bumbo, pôs a boca no trombone e votou contra sempre que, nesses últimos 12 anos, chegaram propostas governistas que julgava erradas.


Foi uma das vozes mais insistentes e estridentes contra a proposta inicial de reforma da Previdência, encaminhada pelo governo Lula (modificada por influência de Paim), e contra as atuais propostas de ajuste fiscal (as Medidas Provisórias 664 e 665). Nem por isso teve que mudar de partido ou de ideia.


As desavenças de Marta com o PT, como é público e notório, não são de natureza ideológica, ética ou mesmo estética. São pragmáticas, e não programáticas. A briga de Marta é por espaço político e pela candidatura à prefeitura de São Paulo em 2016.


Só que disputa de espaço político e contrariedade em apoiar a reeleição de Fernando Haddad, infelizmente para a senadora, não estão na regra firmada pelo TSE que autoriza a desfiliação e eventual troca de partido.


Se Marta está insatisfeita, constrangida, pressionada e sofrendo algum transtorno, o melhor que tem a fazer é entregar o mandato e seguir à risca seu mais famoso conselho: "relaxa e goza".


(*) Antonio Lassance é cientista político.


Créditos da foto: Geraldo Magela / Agência 







Imprensa & Corrupção: Ao som de Roberto Carlos, por Luciano Martins Costa

do Observatório da Imprensa
Imprensa & Corrupção
Os jornais desta quarta-feira (13/5) tratam como comédia o depoimento da doleira Nelma Kodama, parceira de crimes e ex-mulher de Alberto Youssef, o principal protagonista na Operação Lava-Jato, que investiga a corrupção dos últimos dez anos na Petrobras. O noticiário da televisão, na noite anterior, já havia explorado o desempenho circense da mulher, que se levantou da cadeira para mostrar os bolsos traseiros de suas calças ao indicar onde havia escondido o dinheiro quando foi presa tentando fugir do País com 200 mil euros.
Ela também demonstrou como pode ser relaxante um acordo de delação premiada, ao responder a uma pergunta sobre sua relação com Youssef: questionada sobre a mistura de negócios ilícitos com a vida conjugal, ela levantou os braços e cantarolou um trecho da música “Amada amante”, sucesso do cantor Roberto Carlos. A pândega já estava estabelecida, com alguns deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito entrando no coro, quando o presidente da CPI, Hugo Motta (PMDB-PB), pediu silêncio, lembrando que aquilo não era um teatro.
Pois estava equivocado o presidente da Comissão: aquilo era, sim, um teatro, no qual a doleira desempenhou o papel mais sincero entre todos os que compareceram ao palco montado pelo Parlamento em Curitiba para produzir sua versão do inquérito que segue no sistema da Justiça. Condenada pelo juiz Sergio Moro a 18 anos de prisão por liderar um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, ela confirmou que está negociando um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal.
Nelma Kodama, que costumava se apresentar como a “dama do mercado”, está tão confiante em ganhar, como o ex-amante, os benefícios da colaboração com a Justiça, que chegou a elogiar o juiz que a condenou a uma pena tão rigorosa, e usou a CPI para fazer uma declaração de arrependimento. No circo em que a imprensa transformou o inquérito, e diante dos parlamentares que conduzem uma versão própria do caso, ela teve a  ousadia de fazer um discurso contra a corrupção, dizendo que está arrependida de ter dedicado quase toda a vida adulta ao comércio ilegal de moedas e ao crime financeiro.
Cadê os outros?
Dos três principais diários de circulação nacional, apenas o Estado de S. Paulo deu maior destaque a esse trecho do depoimento da doleira. O Globo e a Folha preferiram apostar na pantomima protagonizada pela depoente, tendo deputados como coadjuvantes. Basicamente, oEstado registra que Nelma Kodama relacionou a crise política e as dificuldades econômicas deste começo de ano à Operação Lava-Jato. “O Brasil é movido a corrupção. Uma vez que parou a corrupção, parou o Brasil. Faltou água, é a Lava-Jato. Subiu a energia, foi a Lava-Jato”, afirmou.
Talvez inadvertidamente, a doleira tocou no ponto comum e mais importante  dos grandes casos de corrupção, quase sempre ausente da cobertura jornalística. O que os jornais não contam, e que pode ser ouvido no depoimento, é que a doleira está confiante na obtenção da delação premiada porque prometeu relatar como se dá, por dentro, o envolvimento do sistema financeiro na movimentação de dinheiro originado em atividades criminosas.
A propósito, que fim levou a lista do HSBC da Suiça?
Essa é, segundo especialistas como o desembargador aposentado Walter Maierovitch, a pedra de toque no combate ao crime organizado de todas as naturezas, pois é nas fraturas da legislação sobre trânsito de valores que as quadrilhas legalizam seus ganhos. Ao evitar expor o sistema financeiro, que muita vezes faz vistas grossas a movimentações milionárias entre empresas de fachada, a imprensa também contribui para a perpetuação da corrupção como método de negociação política.
A cobertura parcial das investigações, preservando os operadores ocultos, produz a condenação geral da atividade política e ameaça a governabilidade, criando obstáculos à execução dos planos de recuperação das contas públicas encaminhados pelo Executivo ao Parlamento. A crise política resultante estimula o chamado “baixo clero” do Congresso, majoritariamente conservador, a um protagonismo que ameaça algumas importantes conquistas da sociedade brasileira.
Ainda que involuntariamente e pensando em salvar sua própria pele, a doleira tocou na questão que pode fazer com que a Justiça corte com profundidade as estruturas da corrupção, rompendo os limites de perfil  partidário em que a imprensa tenta conter os escândalos. Se a moda pega, talvez ainda possamos testemunhar o depoimento de um banqueiro na CPI, quem sabe cantando outra música de Roberto Carlos: “Esse cara sou eu”.






Miriam Leitão e a balcanização partidária do Brasil, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Entender o que se passa no Brasil nos últimos anos não é algo fácil. Analistas políticos de direita simplificam a derrocada da oposição culpando o Bolsa Família. Ideólogos de esquerda projetam o passado no presente do país, especulando sobre golpes planejados com ou sem ajuda da CIA. Telejornalistas que vivem num universo totalmente apartado do cotidiano da maioria da população inventam explicações esquemáticas e até exotéricas para a maneira como o povo vota.
A atitude dos partidos derrotados nas últimas eleições presidenciais é risível e de certa maneira esquizofrenica: candidatos que perderam  eleições se comportam como se fossem governantes e tentam empurrar o governo para a oposição. A politização exagerada do Judiciário em detrimento de suas funções institucionais é, sem dúvida alguma, um fator de complicação. A insistência da imprensa de impor à nação sua agenda política, de criminalizar o PT, Lula e Dilma Rousseff e de se elevar à condição de STM (Supremo Tribunal do Moralismo) já está colocando em risco até mesmo os direitos e garantias individuais dos réus nos processos como bem observou um colega notável aqui no GGN (A mídia está substituindo o juiz no ato de julgar, denuncia Mariz). 
O Brasil, contudo, segue em frente. O sucesso financeiro e tecnológico da Petrobras, os recordes de produção do Pré-Sal deveriam ser considerados indicadores de um futuro brilhante, mas os telejornalistas seguem irritando o respeitável público com denúncias cotidianamente requentadas, sempre contra o governo (raramente contra a oposição igualmente implicada no escandalo da Lava Jato). Um criminoso foi transformado em heróico delator profissional e a celebridade do momento é um  Juiz Federal que parece gostar mais do espetáculo do que de cumprir suas obrigações funcionais (dentre as quais a de se desviar da notoriedade fácil). 
As finanças do país estão em dia, as reservas internacionais e moedas consideradas fortes garantem a solidez dos fundamentos da economia brasileira. A inflação é moderada e a taxa de desemprego  baixa não correspondem à imagem do país afundando artificialmente divulgada pelos jornalistas e telejornalistas. A própria imprensa é que parece estar afundando numa crise de identidade.  Os especialistas em comunicação não se dão mais ao trabalho de observar o país que apresentam ao respeitável público, eles se transformaram em caixas de ressonância de uma oposição frustrada que não tem nada a oferecer aos brasileiros além de aulas de como bater panelashttps://www.facebook.com/aloysionunes/videos/896707770370959/ . Poucas panelas foram maltratadas para desespero do Senador e dos jornalistas que cobriram com grande intensidade emocional o fiasco do “panelaço”.
A falta de foco dos jornalistas é evidente. O discurso deles está em algum lugar entre a sonolência e a decadência ideologizada. Isto explica o sucesso dos blogues e a queda acentuada da pontuação no IBOPE do tradicional Jornal Nacional. As tiragens das revistas e dos jornais impressos também estão em queda, em parte por causa da internet. Os jornalistas, sempre eloquentes ao apontar a estupidez dos políticos (especialmente se eles forem do PT) não conseguem entender a razão da existência de um abismo entre a “opinião pública” (aquela que é consolidada pelo resultado das eleições presidenciais) e a “opinião publicada” por eles em favor dos derrotados nas urnas.
Não há perigo de ruptura. Verdade. O perigo talvez seja o de balcanização. Por isto vou recorrer ao grande Eric Hobsbawm para tentar entender e explicar o Brasil tal como o vejo. Diz o historiador:
“Precisamos distinguir entre os dois significados do termo ‘Estado nacional’. No sentido tradicional, refere-se a um Estado territorial sobre o qual o povo que nele vive, a Nação, tem um poder soberano. Este é o sentido do Estado nacional que surgiu com a Revolução Francesa e, em parte, com a Revolução Americana. Trata-se de uma definição política, e não étnica ou linguística, do Estado: é um povo que escolhe seu governo e decide viver sob determinada Constituição e determinadas leis.
Em comparação, o outro significado do termo é muito mais recente e consiste na ideia de que todo Estado territorial pertence a um povo específico, definido por determinadas características étnicas, linguísticas e culturais  - e que isso constitui a Nação. Segundo essa ideia, apenas a Nação pertence ao Estado nacional, e todos os outros não passam de minorias que, embora vivam no mesmo local, não fazem parte da Nação.
Ambos os tipos de Estado nacional estão em crise, mas é fundamental estabelecer uma distinção entre eles. O que vemos na Iugoslávia é o colapso de um Estado no qual coexistem várias nações no sentido étnico, cada qual empenhada em negar às outras seus direitos de cidadania.” (O Novo Seculo - entrevista a Antonio Polito, Companhia das Letras, São Paulo, 2014, p. 27)
O fenômeno referido por Hobsbawm (a balcanização étnica) seguiu uma direção ainda mais terrível no Oriente Médio, onde as aventuras políticas e militares dos EUA resultaram na criação de um Estado Islamico. Neste a Nação se define não por etnia ou adesão política e sim pelo pertencimento a uma versão política e intolerante do islamismo. Todos os que não pertencem à nova matriz Nacional podem ser mortos e, eventualmente, decapitados diante das câmeras de TV. Os tesouros arquitetonicos e artísticos das civilizações antigas que existiram naquele território antes do surgimento do Estado Islamico tem sido são sumariamente destruídos. Estes objetos não tem qualquer valor no presente ou no futuro da nova Nação islâmica.
No Brasil a balcanização não segue uma direção étnica, nem religiosa e sim partidária. Tudo que não espelhe o “ideal tucano” de governança (o que quer que isto signifique, pois FHC quebrou o Brasil três vezes e Geraldo Alckmin deixou os paulistas sem água) é sumariamente rejeitado pela mídia. Alguns jornalistas não escondem que desejam destruir o PT, outros falam em “despetização” do Estado como se os Senadores e Deputados da oposição tivessem “mais direito” ao mesmo do que os petistas eleitos pelo povo brasileiro.
O perigo da balcanização partidária do país existe. De fato, o fenômeno é diariamente fomentado pela imprensa. Há alguns dias, por exemplo, Mirian Leitão acusou Dilma Rousseff de estar “aparelhando o STF”. Vários jornalistas fizeram coro e forçaram o candidato indicado pela Presidenta à vaga no STF a suportar uma verdadeira tortura no Senado Federal. Curiosamente, nem Mirian Leitão nem seus colegas acusaram FHC de ter "tucanizado" o STF quando ele, então Presidente, indicou vários dos membros daquela Corte.
É evidente que a imprensa não tem qualquer compromisso com a normalidade Constitucional. A balcanização partidária do país é a ante-sala da violência política? O princípio de uma “solução final”, do extermínio físico dos petistas? E se os petistas começarem a se armar para reagir à ameaça crível de violência? O desejo frustrado de domínio dos sérvios implodiu a Iugoslávia. O desejo frustrado de império dos tucanos pode implodir o Brasil, principalmente porque em nosso país a imprensa é altamente concentrada.
O Brasil está longe de ser um Estado falido, mas o perigo existe. Aqueles que apostam na falência do regime Constitucional instigam ódios partidários diariamente. Um rompimento da legalidade colocará em risco a unidade territorial do país e fomentará a guerra civil entre os brasileiros de diversas orientações partidárias, políticas e ideológicas. Os prejuízos para a indústria, comércio e arrecadação de impostos serão catastróficos alimentando um ciclo de violência que pode durar décadas.
A quem compete interromper a balcanização partidária do Brasil? Ao TSE, que deve começar a analisar com seriedade a possibilidade de punir os partidos da oposição que fomentam o ódio ao PT. O próprio governo não pode se furtar à sua responsabilidade de quebrar a dinâmica jornalístico-partidária mediante a regulação e democratização da imprensa. Se nada for feito o ódio explodirá nas ruas e depois que isto ocorrer, nem mesmo as Forças Armadas poderão salvar o país, seu povo e a nossa economia.



Oposição espera que delação de Ricardo Pessoa dê força ao impeachment de Dilma

Jornal GGN - A oposição ao governo Dilma Rousseff (PT) aguarda com expectativa a publicidade das informações que deverão constar na delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, da UTC, que assinou o acordo com a Procuradoria Geral da República nesta quarta-feira (13).
Desde que foi preso, em novembro de 2014, Pessoa rendeu manchetes a revistas e jornais que apostam na "vingança" dele contra o PT para atingir a presidente Dilma Rousseff (PT). Solto por decisão do Supremo em abril, Pessoa já teria adiantado, segundo a Folha, que fez doações eleitorais à campanha de reeleição da presidente por pressão de figuras ligadas ao PT.
A declaração foi feita, segundo o jornal, durante as negociações com a PGR sobre o acordo de cooperação. O empresário, que não conseguiu chegar a um consenso sobre os termos da delação com as autoridades do Panará, teria afirmado a membros do Ministério Público Federal que fez uma doação de R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma por medo de ser prejudicado nos negócios que sua empresa tem com a Petrobras.
Em outro momento, Pessoa afirmou que o ex-ministro Edison Lobão (PMDB) recebeu R$ 1 milhão em propina para não criar problemas na obra da usina nuclear de Angra 3, estimada em R$ 2,9 bilhões. A UTC é responsável pelo projeto junto com a Odebretch, a Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez - outras empresas acusadas de formação de cartel na Petrobras.
O ministro das Comunicações e ex-tesoureiro da campanha de Dilma em 2014, Edinho Silva (PT), disse que as doações que sustentaram a reeleição da presidente foram legais. Pessoa teria dito que Edinho foi responsável por solicitar à UTC o repasse. "Jamais mantive qualquer contato com a Petrobras, portanto, jamais cumpri esse tipo de função. Fui um tesoureiro de campanha como todos os demais tesoureiros", rebateu Edinho. Ele admitiu, no entanto, que se encontrou com o empresário, mas para tratar de doações em conformidade com a legislação eleitoral.
Para a oposição ao governo, a fala de Pessoa é mais munição para um eventual pedido de impeachment. A Folha escreveu: "A ligação [feita por Pessoa] com a campanha de Dilma é o fato mais comprometedor para a presidente que apareceu até agora na Lava Jato." Até então, os réus delatores apontaram indícios de que o PT teria recebido doações fruto de esquemas na Petrobras em anos anteriores. A PGR não enxergou indícios suficientes para investigar a presidente, que também foi implicada na compra da Refinaria de Pasadena.
O senador Aécio Neves, presidente do PSDB, disse que a cada dia que passa, mais motivos que irão fundamentar o impeachment de Dilma surgem nos jornais. Os tucanos prometem protocolar a iniciativa na Câmara no dia 27.
Em Nova York, na terça (12), Aécio fez menção à delação de Ricardo Pessoa e afirmou que o jurídico do PSDB está analisando não só as doações empresariais ao PT em 2014 como também outros supostos "crimes" cometidos pela presidente, como as chamadas "pedaladas fiscais".
Segundo a Folha, a assessoria da Presidência não quer se manifestar sobre o assunto alegando que doação de campanha é de competência do PT.