domingo, 5 de abril de 2015




Pacote anticorrupção é alarme contra os aliados

Josias de Souza

Dilma Roussef encontrou uma boa maneira de diluir a raiva que ganhou o asfalto. Ela decidiu dar um banho de gargalhada nesse país lançando um pacote de projetos de lei anticorrupção. Se a plateia estiver entendendo bem, a presidente faz isso para garantir que seus correligionários e aliados não caiam na tentação de continuar roubando. Mal comparando, é como se um alcóolatra cercasse as garrafas de bebida com um sistema de alarmes contra ele mesmo.
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Protestos de 15 de março pelo país141 fotos

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Manifestantes lotam a avenida Paulista, em São Paulo, em protesto que pede o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Diversas cidades do país recebem neste domingo (15) manifestações contra o governo Leia mais Jorge Araújo/Folhapress
Essas pessoas que sistematicamente desmoralizam o governo e atiçam as praças contra Dilma precisam mesmo ser identificadas, submetidas à execração pública e punidas. Infelizmente, os suspeitos geralmente integram a coligação da presidente. Os mais notórios escondem-se nas fileiras do PT e do PMDB, os dois sócios majoritários do empreendimento governista. Os mais ousados presidem as duas Casas do Legislativo.
Nesta terça-feira, enquanto o ministro da Justiça exibia o pacote anticorrupção aos presidentes investigados da Câmara e do Senado, a Vara do doutor Sérgio Moro informava no Paraná que a empresa de consultoria do mensaleiro José Dirceu faturou R$ 29 milhões em oito anos —uma parte proveniente das empreiteiras provedoras do petrolão; o PT reafirmava que seu tesoureiro João Vaccari Neto só amealhou “doações legais”; e o delator Paulo Roberto Costa aparecia em vídeo declarando aos procuradores da Lava Jato que “doação legal é uma balela.”
Simultaneamente, Lula combinou com Dilma os detalhes de uma reforma da equipe ministerial que tomou posse não faz nem 80 dias. A ideia central é reforçar a presença do PMDB na Esplanada. O mesmo partido que sustentou na Petrobras o ex-diretor Jorge Zelada, que acaba de sofrer o bloqueio de R$ 40 milhões que entesourara em contas no principado de Mônaco.
Toda essa lama escorre contra um fundo de progressivo embrutecimento dos brasileiros saqueados. As redes sociais já anunciam para abril um novo ‘asfaltaço’. Se tudo correr como planejado pelo Planalto, dessa vez os manifestantes vão às ruas para gargalhar da penúltima da Dilma. Até lá a presidente talvez já tenha bolado um novo número —como desfritar um ovo, por exemplo.




Imagem de Dilma foi à UTI, informa o Datafolha

Josias de Souza

Editoria de ARte/Folha
Nos seus primeiros quatro anos como presidente, Dilma Rousseff não conseguiu vincular sua sisuda figura a uma simbologia, uma marca. Iniciado o segundo reinado, ela precisou de apenas 77 dias para grudar na própria testa o signo da ruína. O Datafolha informa que a imagem da ex-supergerente foi internada pelos brasileiros na UTI. A recuperação vai requerer tratamento de choque.
Dilma já é considerada ruim ou péssima por 62% dos brasileiros. Aproxima-se perigosamente de Fernando Collor, que arrostava taxa de rejeição de 68% em setembro de 1992, às vésperas de ser escorraçado do Planalto pelo impeachment. Uma aversão desse tamanho não passa com pomadinhas anticorrupção e curativos ministeriais. Exige, de saída, a grandeza de uma autocrítica genuína.
Depois de perder a pose e o asfalto, a presidente perde o pouco que lhe restava de discurso. O lero-lero segundo o qual apenas os eleitores de Aécio Neves fazem cara de nojo para Dilma perdeu completamente o nexo. Dilma tanto fez que definha também em seus próprios redutos. Mesmo entre os beneficiários das políticas sociais, a rejeição disparou.
Dilma tornou-se uma presidente minoritária. Sua aprovação aproxima-se da casa de um dígito. Apenas 13% dos patrícios classificam-na como ótima ou boa. Nesse ponto, madame igualou-se a FHC, sua eterna e mais querida referência. Em setembro de 1999, acusado de estelionato eleitoral por ter desvalorizado o Real após reeleger-se, FHC também amargou os mesmos 13% de aprovação.
O pessimismo do eleitorado completa a atmosfera de borrasca que se acercou de Dilma. De cada dez brasileiros, seis apostam que a economia vai piorar. A grossa maioria acha que a inflação e o desemprego subirão 77% e 69%, respectivamente. Nessa seara, Dilma não tem boas notícias a fornecer neste ano de 2015, talvez nem em 2016.
Como se fosse pouco, os desdobramentos do petrolão são acompanhados com um interesse de novela: 73% tomaram conhecimento da “lista do Janot”, com os nomes de autoridades e congressistas encrencados. O escândalo é de fácil apreensão. Numa fase em que sobra mês no fim do salário, o brasileiro revolta-se com as milionárias cifras entesouradas na Suíça.
Apegada ao manual petista de administração de crises, Dilma vem reagindo à ruína de forma previsivelmente acanhada e convencional. É fácil, muito fácil prever o seu próximo erro: vai chamar João Santana para uma conversa. A crise não pede mais embromação publicitária. Em vez dar ouvidos ao marqueteiro, Dilma deveria escutar o seu instinto de sobrevivência.




Brasil converteu-se na República do dedo-duro

Josias de Souza


No Brasil, político que roubava mas fazia dispunha de imunidade. Sua obra justificava seus pecados. O proveito substituía a ética. De uns tempos pra cá, porém, os políticos esqueceram de maneirar. A única consequência de um mar de lama passou a ser a produção de outro. Depois que o mensalão desaguou no petrolão, o mar virou oceano. Para complicar, a crise econômica limitou o proveito dos avanços sociais. Daí a explosão da impaciência nacional com a corrupção. As pessoas perceberam que o roubo é para poucos, sem proveito para a maioria.
A história brasileira inspira pessimismo. Mas muita gente lúcida começa flertar com o otimismo. Acredita-se que o governo Dilma Rousseff pode ser o último a se escorar num modelo político em que a governabilidade está condicionada à costura de alianças indecentes e à complacência com os maus costumes. Tudo dependerá do tamanho do castigo que o Judiciário vai impor aos políticos e empresários que tomaram de assalto a Petrobras.
O julgamento do mensalão foi um marco. Muitos reclamam da mão leve do Supremo com a bancada política da Papuda. José Genoino já está livre. José Dirceu, Delúbio Soares e Cia. já migraram da cana dura para a detenção domiciliar. Mas o contraste entre essas penas brandas e as prisões longevas impostas aos operadores e empresários que se meteram no mensalão produziu um fenômenos redentor: o ‘dedodurismo’.
Deve-se sobretudo ao suor do indicador de corruptos e corruptores o avanço nas apurações da Petrorroubalheira. Não bastasse os cerca de 15 delatores do Paraná, uma das construtoras da Lava Jato, a Setal Engenharia, firmou com o Cade um acordo de leniência, como são chamadas as delações de empresas. Comprometeu-se a desnudar um cartel que frauda licitações na Petrobras desde o final dos anos 90, sob FHC, tendo se consolidado em 2003, na gestão Lula.
Suprema ironia: os dedos-duros deram ao Brasil o que lhe faltava, uma certa lógica protestante. Deus já não se sente à vontade tendo que ajudar Baruscos e Duques a entesourar milhões no estrangeiro ou os empreiteiros a firmar grandes contratos. Quanto aos políticos pilhados com a mão suja de óleo, já não há obra superfaturada capaz de redimi-los.



Em crise, PT perdeu o recato, o discurso e a rua

Josias de Souza

Quando estourou o mensalão, o PT simulou desconforto. Chegou mesmo a encenar o expurgo do então tesoureiro Delúbio Soares dos seus quadros. Hoje, no auge do petrolão, o partido não consegue exibir nem mesmo um mal-estar fingido. Perdeu inteiramente o recato.
Quando a cúpula do PT foi parar na cadeia, o partido fez pose de vítima injustiçada. Hoje, com o tesoureiro João Vaccari Neto denunciado pela Procuradoria e o mito José Dirceu devolvido às manchetes policiais, a legenda finge-se de morta. O PT perdeu o discurso.
No primeiro mandato de Lula, quando a oposição ensaiou um coro de impeachment, o PT ameaçou convulsionar o asfalto. Há uma semana, o meio-fio rosnou para o petismo e pediu a saída de Dilma. O PT perdeu o monopólio da rua.
No comando do poder federal desde 2003, o PT atravessa a mais grave crise de sua curta existência de 35 anos. A legenda chega ao seu 5º Congresso, marcado para junho, de ponta-cabeça.
Considerando-se a pauta do Congresso —da “atualidade do socialismo petista” até “a economia política pós-neoliberal”— o PT está perdido. Não é que o partido não tenha farejado uma solução para o seu problema. Em verdade, o PT ainda não enxergou nem o problema.
O PT assiste à hemorragia da recém-instalada segunda administração de Dilma Rousseff com a passividade de quem se julga capaz de ressuscitar com Lula em 2018. Erro primário. Sem Dilma, pode não haver Lula daqui a três anos e nove meses.
Pregoeiro do “nós-contra-eles”, o PT testemunha o crescimento do “quase-todos-contra-nós”. Acusa os adversários de estimularem o ódio contra o PT. Mas esquece de levar em conta que o antipetismo é uma reação ao ódio destilado pelo PT.
O manual anticrise do PT está com o prazo de validade vencido. Qualquer um que não reze pelo catecismo da legenda é um lacaio da elite branca de olhos azuis. Mas a crise moral e a ruína política que fazem a caveira do PT não carregam as digitais da oposição. Com a imagem e as práticas estilhaçadas, o PT afunda sozinho.






Lula dispara contra Mercadante e acerta Dilma

Josias de Souza

O PT ainda é um partido diferente dos demais. Os outros têm excesso de cabeças e carência de miolos. Nos seus 12 anos de poder federal, o PT provou que sofre da mesma carência. Mas com uma cabeça só. A palavra de Lula tem peso de sentença. E o todo-poderoso sentenciou que o governo Dilma está politicamente zonzo por culpa de Aloizio Mercadante. O veredicto é equivocado.
Nada mais injusto do que atribuir ao chefe da Casa Civil a responsabilidade pela embriaguês política do Planalto. Se 10% das ideias que atribuem a Mercadante tiverem saído mesmo da cabeça dele, pode-se afirmar que o ministro correspondeu a todas as expectativas de quem não esperava nada dele. Mas quem preside a implementação dos conselhos é madame, não o conselheiro.
Mercadante saiu-se com a ilusão de que Gilberto Kassab e Cid Gomes recrutariam uma infantaria parlamentar capaz de fazer do PMDB uma tropa de achacadores irrelevantes. Mas foi Dilma quem colocou a dupla dentro de dois dos mais cobiçados cofres da Esplanada —Cidades e Educação. Deu tudo errado. Cid já se foi. E Kassab dedica-se a jurar em entrevistas que Mercadante continua prestigiado. Lorota.
Espremida por Lula, Dilma desossa Mercadante. Suprimiu-lhe a atribuição de conselheiro aleatório para assuntos econômicos desde a chegada de Joaquim Levy à pasta da Fazenda. Desobrigou-o da articulação política depois que dois desafetos do ministro —os peemedebistas Eduardo Cunha e Renan Calheiros— passaram a rosnar para o Planalto, impondo humilhações e derrotas em série à presidente.
É forçoso reconhecer: desde que o PT chegou ao poder, a Casa Civil da Presidência da República tornou-se a morada preferida da urucubaca. As seis pessoas que passaram pela poltrona deveriam ter despachado apenas às sextas-feiras, numa encruzilhada. De preferência acompanhados por um assessor tranca-ruas. Como não fizeram isso…
José Dirceu foi parar na cadeia. Dilma tornou-se uma presidente hemorrágica. Erenice Guerra saiu pelos fundos, empurrada pela suspeição. Antonio Palocci foi implodido por um patrimônio inexplicável; Gleisi Hoffmann é perseguida por um ‘youssefiana‘ de R$ 1 milhão. Que surpresas o azar reserva para Mercadante? Por ora, apenas a marcação cerrada de Lula.
Lula alveja Mercadante por duas razões. Uma é secundária: conhecendo-o há mais de três décadas, aprendeu não gostar dele. Outra, preponderante: convenceu-se de que o companheiro cometeu o mesmo erro de José Dirceu: enxergou a Casa Civil como trampolim para chegar à Presidência da República. E Lula, por imperial, não admite o surgimento de outra palmeira , ainda que débil, no gramado.
Dilma mantém Mercadante no cargo também por duas razões. Uma secundária: adora a fidelidade do auxiliar. Outra, primordial: tendo se livrado de Gilberto Carvalho, não gostaria de enfiar dentro do Palácio do Planalto um novo espião de Lula. É como se a criatura tentasse atenuar os efeitos da tutela do criador. Tudo isso num instante em que a autoridade da presidente se liquefaz. Haja urucubaca!



Virtudes de Graça Foster revelaram-se inúteis

Josias de Souza

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Graça Foster esteve no Congresso pela enésima vez. Submeteu-se a uma inquirição na nova CPI da Petrobras. No ano passado, ainda no comando da estatal, ela cansou a língua de tanto repetir que a companhia tinha controles internos confiáveis. Hoje, já apeada da presidência da empresa pelo escândalo da Lava Jato, Graça se diz constrangida e envergonhada.
“Lógico que passo horas do meu dia pensando em tudo o que está acontecendo na Petrobras. Eu entrei aqui, nas outras CPIs, em audiências, com muito mais coragem do que entro hoje aqui”, ela reconheceu perante os deputados que integram a comissão. “Eu tenho realmente um constrangimento muito grande, por tudo isso, de olhar pra vocês.”
Guiando-se pela cartilha de Lula e Dilma, Graça reiterou que também “não sabia” que prepostos do PT, do PMDB e do PP violavam as arcas da Petrobras à larga, arrendando a estatal a bolsos espertos, à tesouraria clandestina dos partidos e à caixa registradora cartelizada das empreiteiras corruptoras.
O Brasil sabia pouco de Graça Foster até fevereiro de 2012, quando Dilma a promoveu de diretora de Gás e Energia a presidente da Petrobras. De origem humilde, ela dedicara a vida à estatal. Construíra uma fama de austeridade, eficiência e honestidade. Mas todas as virtudes da boa senhora revelaram-se uma hedionda inutilidade.
Até prova em contrário, Graça Foster, aposentada sob desmoralização, vai perambular pelos desvãos do noticiário por um bom tempo como um exemplo de administradora inocente, que emprestou sua boa reputação para que os colegas corruptos utilizassem como fachada para a mais desavergonhada operação de pilhagem já vista no país. Graça acha que a Petrobras merecia uma presidente mais eficiente do que ela. Bobagem. Bastaria ser menos cega.
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ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL!
 
Josias de Souza




Charge do João Montanaro, via Folha.