domingo, 29 de março de 2015





A copa dos crentes, os crentes da copa

O escritor e jornalista carioca Sérgio Porto (1923-1968), sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, cunhou a sigla FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País. Porto (que também inventou a expressão “samba do crioulo doido”, referindo-se ao non sense usual dos sambas-enredo), notou que no início da ditadura militar, entre 64 e 68, houve um drástico aumento das declarações públicas imbecis.
Certamente o clima de solenidade e patriotada também estava por trás do besteirol. Porto morreu em 68, portanto não teve tempo de ver a criação, no final do ano de 1969, da sinistra matéria obrigatória Educação Moral e Cívica nas escolas. Sinistra não porque tratava de educação, de moral ou de civismo, mas porque fazia parte de um “pacote” ideológico que transformava em inimigos todos os dissidentes do regime militar, incrementado após 1968 e o decreto do AI-5. A seriedade excessiva sempre anda perto do ridículo.
O inimigo dos milicos era tratado como “inimigo do país”. É interessante como a realização desta copa do mundo em 2014 tenha disparado comportamentos tão similares aos da época da ditadura. Por um lado, nunca se falou tanta asneira, particularmente após a derrota para a Alemanha por 7 a 1. Foi um bombardeio de termos descabidos como “humilhação” e “vexame”. Eu vi gente reclamar deste artigo do Adam Gopnik na New Yorker (leia aqui), mas para mim ele faz todo o sentido.
“Sabemos, embora essa seja uma verdade esquecida entre os brasileiros, que foi apenas uma derrota em um jogo. Não deveria ser – e de fato não foi – uma ‘humilhação nacional’ ou algo parecido. Foram só onze caras tendo um dia ruim, a maioria deles milionários que trabalham e moram no exterior”, escreveu Gopnik. Porque os onze milionários encarnariam o “espírito nacional” é uma coisa que também me escapa.
O que incomodou alguns leitores brasileiros foi a comparação com a guerra. Gopnik explica que o início da primeira Grande Guerra foi impulsionado pelo medo irracional de “humilhação nacional”. E que “honra nacional” e “humilhação” são termos-chave nessa linguagem bélica perversa. Para quem achou o paralelo com o horror da guerra indevido, o nosso paspalho-mór, Luciano Huck (que tentou capitalizar em jogadas marketeiras como a do #SomosTodosMacacos), encarreegou-se de confirmá-lo no sábado.
Conversando em seu programa com Galvão Bueno, Huck comparou o 7 a 1 contra o Brasil com o 11 de setembro e a destruição das Torres Gêmeas de Nova York, quando morreram quase três mil pessoas. O próprio Galvão – que não é nenhum mestre da sobriedade – teve que dizer que Huck estava exagerando. É a volta do Febeapá. Imagine Galvão Bueno mandando você baixar a bola. :)
Como sugeriu Gopnik, há uma chave aí: a de que sob ideologias autoritárias a discordância atrai sempre um componente de “humilhação”. Como nas religiões monoteístas, há uma moral única, anterior e exterior às pessoas, que não pode ser desafiada. É engraçado como em nosso país psiquicamente colonizado a idéia de “humilhação” está sempre presente. É só digitar o termo “humilha” no google ou no youtube para acessar centenas de conteúdos em que alguém é supostamente “humilhado”. Vá lá e veja que em quase nenhum há “humilhação” – só discordância.
Não há ridículo na discordância. Há ridículo, isso sim, na concordância forçada, na crença sagrada da autoridade. Como acontece na Coréia do Norte, onde os ditadores de plantão usam títulos como “Querido Líder Que É Uma Encarnação Perfeita da Aparência Que Um Líder Deve Ter”, “Estrela Brilhante da Montanha Paektu”, Glorioso General que Desceu do Céu” e “Maior Encarnação do Amor Revolucionário Entre Camaradas” – como se fossem fantasias de luxo de Clóvis Bornay.
Um exemplo mais próximo é o do presidente venezuelano Maduro, que disse que Hugo Chávez apareceu para ele na forma de um passarinho, ou que o rosto do finado surgiu numa escavação do metrô em Caracas. A semelhança bizarra com a aparição de Cristo num fiofó de cachorro não é acidental. Como se vê, a crença na autoridade sagrada e na “humilhação” da discordância é que é sempre ridícula, seja à direita ou à esquerda, na política ou na religião.
O governo da presidente Dilma começa a demonstrar sérios sintomas dessa doença dúplice. Logo depois de Dilma declarar à repórter Renata Lo Prete (aos 6' do segundo bloco) que "O Brasil conseguiu construir uma política federativa de segurança (...) Todos contribuíram para garantir um padrão de segurança, nós planejamos juntos, nós executamos juntos", uma megaoperação no Rio de Janeiro prendeu 19 ativistas envolvidas com manifestações políticas. As prisões, “preventivas” e sem fundamento legal, lembram os tempos da ditadura. Nove outros ativistas foram considerados “foragidos”. Quanto mais besteira faz o governo, mais repressivo se torna. Seria ridículo, se não fosse sinistro.
Melhores eram os tempos em que, observou alguém, os jogadores não sabiam nem cantar o hino nacional, como Garrincha (esse não sabia às vezes nem qual era o país adversário), mas sabiam jogar. Não havia uma crença no “direito divino brasileiro à vitória no futebol”, esse amigo do ridículo, mas intuia-se como chegar a ela. Sem Cristo nem uma pátria autoritária na cabeça, mas com o Exu nas pernas. Aí sim o melhor “espírito nacional” estava encarnado.
Torturada pela ditadura em 1970, a ativista Dilma, ao fim de tanto tempo, virou ela mesma uma pró-ruralista, refém das chantagens políticas das organizações religiosas mais moralistas, adepta do populismo futebolístico e da repressão violenta ao direito de manifestação. Ou seja, na prática muito parecida com os milicos que a encarceraram – mesmo que ela se diga o contrário deles. A pergunta que não quer calar é: a tortura não funcionou, ou funcionou muito bem? O Febeapá nunca acaba.




O sorriso de Marina (uma novela)

O Tropicalismo fez uma síntese interessante do Brasil. Havia uma verve poética e informação musical avançadíssimas para a época (na verdade avançadas até hoje), mas também espaço para a apropriação da dramaticidade à antiga, como a interpretação de Caetano Veloso para “Coração Materno”, de Vicente Celestino.
A gravação está presente no álbum-manifesto Tropicália, de 1968. E Caetano e o genial maestro Rogério Duprat, autor do arranjo lancinante, não estão “zuando” ou desligitimando de qualquer maneira o sentimentalismo dessa música absurdamente grandiloquente, inimiga conceitual das bossas novas.
Nas músicais inaugurais da carreira de Gilberto Gil e do movimento, “Procissão”, “Louvação” e “Domingo no Parque”, também estão presentes a religiosidade e a crônica populares. A fase mais aguda da ditadura se aproximava – e mesmo assim não é uma produção ressentida, ranzinza ou “crítica” no sentido pseudomarxista do termo. Na verdade é bastante pop. E bastante inteligente, e bastante inspirado.
Ou seja, o Brasil convergia simultaneamente para seu pior momento (politicamente) e seu melhor momento (criativamente), o que diz algo do caráter paradoxal do país. A Marina Silva que emerge dos funerais de Eduardo Campos, e que foi colega de Gil no ministério de Lula (e depois no PV), não se parece com o compositor. Se parece com uma letra que ele poderia ter escrito.
Para o cidadão sudestino, a região Norte é em si mesma um mistério. Por preguiça, costuma-se achar que tem muito do nordestino que a colonizou majoritariamente. Mas na verdade é de uma cultura totalmente original, onde a ancestraldade e a contemporaneidade estão juntas, no tempo não-linear dos indígenas. Marina Silva parece-se menos com uma crente urbana do que com um ser da floresta. Conhece um Brasil que o Brasil ainda precisa conhecer.
O que a morte trágica de Eduardo Campos desfechou foi um duro golpe no messianismo de araque do PT. Eu sou daqueles que acham que Lula fez um governo bom e importante (e mesmo “mágico”) – mas que se perdeu em algum momento. Bom o suficiente para ter Marina e Gil em seu ministério. Gil emplacou, Marina não.
Mas Gil corria por fora com as “charmosas” questões culturais, enquanto Marina ficou aprisionada no embate entre a sustentabilidade e o pragmatismo econômico e político. Ganhou a pecha de “chata” e “inábil” por seu principismo – enquanto a chatice e a inabilidade de sua concorrente direta, Dilma, eram cultivadas como qualidades gerenciais.
Acontece que o PT está cobrando caro por seus (ou de Lula) antigos acertos: está cobrando uma aura de sacralidade, infalibilidade e intocabilidade – tudo que ele e o PT já perderam. Não é à toa que ameaçam um chilique quando uma figura egressa das suas fileiras (e egressa antes do Brasil mais profundo) vai ganhando tintas messiânicas mais impressionantes.
Abordei neste texto, Um golpe de (da) morte na candidatura Dilma?, o processo de reposicionamento de Marina no cenário. De lá pra cá, o que aconteceu de novo foi o velório midiático de Eduardo Campos em Recife. É claro que a grande imprensa quer tirar sua casquinha, tanto política quanto sensacionalista. Isso não é novidade.
Mas a enxurrada nas redes de ataques descabidos a Marina tomou uma dimensão constrangedora. Com a ascensão (ops) de marina, o psiquismo petista desceu do pedestal de vez. Nem parece que está no poder, parece uma vizinha do "núcleo pobre" da novela, caricatamente futriqueira e ressentida. Nada como um banho de dramalhão mexicano para botar os personagens no lugar. Com o perdão da caricatura, Marina é a personagem mulher, pobre e nobre. Arquétipos também existem.
Meu amigo Bruno Torturra escreveu no facebook (vou reproduzir uma boa parte do post porque é muito preciso):
“Então quadros e militantes do PT estão a postar fotos da Marina Silva sorrindo e de Lula chorando no enterro de Eduardo Campos... Como se isso provasse que, sei lá, ela está feliz? Ou que é insensível? Na boa. Não é apenas desonestidade. É burrice. Porque além de um festival de tosqueira, é um enorme tiro no pé (...) Se ela coloca tanto medo assim, a ponto de inspirar tanta agressividade durante o funeral de seu companheiro de chapa, vamos lembrar que, antes de ganhar de Dilma, Marina tira Aécio do segundo turno. Certo?
Seria de se esperar, portanto, que tucanos estivessem mais apreensivos. Não é o que sinto, tomando como base, inclusive, a reação de parlamentares petistas que partiram para ataques irracionais a Marina (...) Há muitas críticas duras, contradições legítimas em torno da figura e da candidatura de Marina. E que precisam ser feitas sem medo. Hoje inclusive, por que não? A começar por sua religiosidade e suas posturas morais que tocam a política. Assunto sério.
Mas requentar boatos falsos? Questionar a sinceridade de seu luto? Essa histeria, esse ódio que despolitiza, cria um cenário ainda mais perigoso para o próprio PT após a morte de Campos. Mostra desespero, desrespeito, fraqueza de argumentos. Pega bem mal. E dá lastro ao tipo de polarização política baseada em ódio, não em razão, que se espalha como epidemia. E que se manifesta, principal e cronicamente, no surdo e histérico bordão: ‘a culpa é do PT’”. Bingo. O PT inventa a direita, a direita inventa o PT. É exatamente desse jogo besta que queremos (precisamos) escapar.
É particularmente feio o episódio do uso vil da foto no velório em que Marina sorri. Porque ela está sorrindo para o filho querido de Eduardo, lembrando bons momentos do morto, todos debruçados em cima do caixão. É muito feio distorcer essa cena delicada. Para sorte do bom humor, logo surgiu na rede o termo "fiscal de velório".
Eu brinquei de dizer que, no golpe do destino que levou Eduardo, o “supremo roteirista forçou a mão”. Está claro que o Brasil gosta de enredos grandiloquentes e rocambolescos – e que Marina vai se beneficiar muito, eleitoralmente, dessa comoção.
Numa análise interessante de Josias de Souza, ele descreve a trajetória de Marina rumo à presidência do Brasil como uma sucessão de “repentes”: a ida dos manifestantes para as ruas, a adesão de Marina à chapa de Eduardo quando a mão do PT inviabilizou o registro de seu partido, a Rede, e finalmente a morte de Eduardo.
Mas essas coisas (exceto a morte de Eduardo) não surgem do nada, como um raio em céu azul. Surgem de intuições sociais e políticas, mesmo quando não cabem no figurino das análises mais caretas de conjuntura. Que ninguém negue a Marina o reconhecimento de que estava no lugar certo na hora certa, que rompeu quando tinha que romper, que aderiu quando tinha que aderir, e de que afinal estava de novo no lugar certo na hora certa. Isso não é oportunismo, é coerência interna. Isso é isso. A mudança se faz com o que se tem.
E essa é a magia da política. Acompanhemos a novela da nossa vida: ela é interativa, tem voto nas viradas.
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Marina piscou - só que não


Estou vivendo em dois mundos paralelos e não-comunicantes. Desço para a padaria, para a feira, tomo o ônibus, e o que eu escuto é “Dilma vai perder para a Marina”. Às vezes nem “Marina” é, é a “outra lá”. Isso é feio? Não acho. A narrativa popular é a narrativa popular. Quem elegeu Lula e o sustentou muitos anos no poder foi a narrativa popular, e não foi um ideário, err, socialista. Nem nada parecido.
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Foto: Reprodução

É claro que a narrativa popular não é inimiga de ideais como os de justiça e de bem estar social. Ela só não fetichiza isso na forma de programas, compromissos escritos e outros “yanguismos” (da polaridade taoista yin, o intuitivo, obscuro, feminino etc; e yang, o lógico, regrado, masculino etc).
Aí, quando me conecto com as redes sociais, estou em outro mundo. Nesse outro mundo, entre 6ª e sábado, Marina ganhou e perdeu as eleições. Ganhou as eleições ao lançar seu programa, que continha um forte capítulo em defesa de ideais GLBT, conquistando imediatamente manifestações de apoio, entre outras, de Jean Wyllys e Laerte. E perdeu as eleições no sábado, ao lançar uma “correção” do programa, que ainda o deixa o mais forte nesse tópico entre os três principais candidatos, mas relativiza em alguns pontos sensíveis, como o do casamento gay.
A campanha de Marina diz que foi uma simples correção na compilação das colaborações de que o programa foi alinhavado. Acontece que, na véspera, numa série de twítes truculentos, o pastor-brucutu Silas Malafaia ameaçou Marina com “a mais dura fala que já dei até hoje sobre um presidenciável”. Se a coordenação do programa tinha errado mesmo, a última coisa que deveria ter feito era uma correção.
Abriu espaço para falas, cheias de razão, como as de Wyllys (“Bastaram quatro tuítes do pastor Malafaia para que, em apenas 24 horas, a candidata se esquecesse dos compromissos de ontem, anunciados em um ato público transmitido por televisão […] Marina, você brincou com a esperança de milhões de pessoas!”) e Laerte (“Campanha de Marina corrige os termos do plano. Ufa! Que alívio, ein? Íamos ter que rever nossos firmes posicionamentos!”). Em seu melhor momento, assumindo a liderança nas pesquisas e conquistando apoios inusitados, Marina piscou.
Acontece que, na semana passada, o PT determinou que os escalões do partido no governo, a militância e as organizações próximas bombardeassem Marina com absolutamente qualquer argumentação. Fosse verdade, meia-verdade ou mentira pura. Vi desde alegadas “ligações com Serra”, “desmatamento disparando quando ela foi ministra do meio ambiente” (na verdade diminuiu, era a principal pauta dela), o economista André Lara Resende identificado como “economista do Collor” (não era), a coordenadora de campanha Neca Setubal “responsável pela divida inteira do Itaú” (como se ela fosse controladora do banco, e não educadora e dona de 1 ou 2% dele).
As patrulhas petistas falaram do apoio do colunista Diogo Mainardi – que não é exatamente um apoio, visto que ele promete retirar o apoio no dia seguinte à posse. O texto tem sua graça e, de um ponto de vista mais à direita, não diz nenhum absurdo. Mas a mais bizarra acusação é atribuir a candidatura de Marina (e o acidente que matou Eduardo Campos) a uma conspiração financeiro-sionista internacional.
Essa tentativa de desconstruir a candidatura Marina a qualquer custo, em nome do “projeto de esquerda” (cof cof) petista se reforçou bastante com o vacilo da “errata” do programa. Acontece que isso vale apenas para as redes sociais. No mundo “exterior”, Marina não é essa criação lógica e programática. É um personagem empolgante, cheio de qualidades populares (e aí o termo popular não tem nada a ver com a acepção marxista do termo). Quem vota nela sem muita explicação não é ignorante, apenas está intuindo um caminho – que vá além de onde Lula flopou. Ela é mulher, negra com um quê de indígena, tardiamente alfabetizada, combativa, uma sobrevivente de verdade. Marina piscou – só que não.
Mais do que isso, ela atendeu uma demanda política que efetivamente existia. No começo de maio, publiquei este texto, chamado Porque Dilma não vai se reeleger. Chamaram de “wishful thinking” (um “querer que aconteça”). Os números hoje concordam com a minha especução, desenvolvida aqui (Um golpe de [da] morte na candidatura Dilma?) e aqui (O sorriso de Marina [uma novela]). Marina encarna hoje o que eu gosto de chamar de “projeto pardo”, esse funcionamento meio tribal, flutuante e bastante intuitivo de uma parte da sociedade brasileira. Que o “projeto branco”, rei da cagação de regras, tem uma grande dificuldade em entender. O jornalista Fernando Rodrigues relata que o próprio Zé Dirceu (que desmentiu) estaria entendendo que Marina já ganhou, por ser “o Lula de saias”.
Além de Lula de saias, num certo sentido Marina é a “Dilma de verdade”. Era ministra, estava disponível, próxima de Lula – assim como o próprio Eduardo Campos era ministro e tinha em Lula um mentor, mesmo sendo de outro partido – e foi preterida em função da invenção de Dilma, que não tinha um grande histórico, depois de ter militado contra a ditadura e ter sido presa. O feito mais empolgande de Dilma é ter falido uma loja tipo R$ 1,99 em 1996, em Porto Alegre.
Assim, Lula (mesmo que não goste disso), é o roteirista desse segundo turno: por ter inventado Dilma, claro, mas também por ter sonegado continuidade política à carreira de Marina, e de Eduardo. Claro que também pesou o PT ter mexido os pauzinhos para a Justiça Eleitoral negar registro à Rede Sustentabilidade de Marina, no final do ano passado. Ela aderiu furiosa à chapa de Eduardo, acusando o chavismo do PT, e deu no que deu. Na vitória de Marina para presidente.
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Marina, Dilma, a castanheira e o cimento


Dilma Rousseff, candidata à reeleição (Foto: AP)
A campanha de Marina Silva tem enfrentado dois inimigos, ou talvez duas faces do mesmo inimigo: o patriarcado. Uma corrente é mais sincera, digamos assim. É a mera arrogância em desqualificar uma índia-negra nortista e mística como despreparada, em si, para exercer a presidência.
A outra, mais hipócrita, é a mesma que dizia pela boca do Lula presidente que Marina era “o Pelé” do ministério, e agora a transforma em um “novo Collor”. Vinda do PT, é uma acusação bizarra. A propaganga anti-Marina diz: “sabemos como isso terminou”. Sabemos, claro: the original Collor está na base petista.
E a tosqueira da campanha valeu um puxão de orelha de Eduardo Suplicy no próprio partido. Mas porque essa opinião seria patriarcal se, na verdade, trata do embate de duas mulheres, no segundo turno? Porque não há nada mais patriarcal do que a propaganda fetichista, vazia de sentido real. Já é suficientemente ruim encarar qualquer coisa como produto; acreditar que o marketing se sobrepõe totalmente às eventuais qualidades do “produto” é catastrófico.
Um exemplo drástico disso nesta campanha eleitoral é o Funk do Aécio. Todo mundo culturalmente informado sabe, ou deveria saber, que um dos combustíveis dos gêneros artísticos do gueto e do underground é a credibilidade de rua. O funk do Aécio é uma peça publicitária que qualquer detrator do candidato compartilha com enorme prazer, porque é toda errada. Da presença de playbas e patricinhas branquinhos à evidente desconexão entre o estilo da música e o discurso convencional da política – e à genial frase (enquanto chacota) “Minas se modernizou, isso todo mundo sabe. E agora até minha vó tá usando Whatsapp”.
Um dos principais ataques a Marina nos últimos dias foi a, hm, acusação de que ela usa a leitura aleatória da bíblia como uma fonte de inspiração. Aí há não um, há dois preconceitos acoplados. Eu mesmo tenho birra com a bíblia, por causa das implicações repressivas do cristianismo (e das religiões monoteístas em geral). Mas não sou, absolutamente, contra o uso de oráculos ou dispositivos mágicos como disparadores de insights.
Confrontada na entrevista no Jornal Nacional, da Globo, na segunda-feira, a resposta da candidata foi exatamente essa. Para além da razão, cada pessoa é um “pacote cultural”, e vai procurar os insights (ela usou o termo) que lhe sejam úteis, onde for. Tanto nas disciplinas científicas quanto na arte e, porque não, nas conexões místicas.
O ápice dos ataques nessa linha veio do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que escreveu na Folha de S. Paulo: “O fundamentalismo de Marina Silva não decorre da ignorância, mas de um defeito de percepção. Os especialistas chamam essa condição de desordem do desenvolvimento neural”.
Mas quem conhece a história de Marina sabe que ela representa exatamente o oposto do comportamento usual na ortodoxia neopentecostal, em que o “lugar da mulher” é apoiando o seu homem. Nas igrejas evangélicas, a mulher é a santidade, o homem é o santo. Mas Marina é seu próprio milagre.
Mesmo que não saiba, ou não queira, Marina é uma feminista orgânica, enfrentando a sociedade e os machos que tentam lhe impor limites – passando pelo próprio Lula. Dilma é uma criatura bem mais cordata com seu Pigmalião.
Como escrevi neste outro texto, O Sorriso de Marina, ela tem um quê tropicalista. Não se parece com Gilberto Gil, seu colega negro de ministério, e depois de Partido Verde – mas sua vida poderia ser uma letra escrita por ele. Ou, como postou meu amigo Xico Sá no feice, “Sou mais Dilma por questão de classe, mas dou valor à biografia, à luta, à honestidade de Marina da Silva. E fazer a boa política é nunca pensar em desconstruí-la; precisamos dela, é decência, amor, honestidade, importância, que mulher phoda, boniteza da floresta”.
Num belo texto, onde explica no que Os Silvas são diferentes entre si, a jornalista Eliane Brum escreve que Marina representa não o proletariado brigando pelo acesso ao consumo, mas o não-pobre, o não-emergente, o não-ostentatório.
No meu trecho predileto, ela conta: “Em 2011, quando se começava a implantar o canteiro de Belo Monte (…) o chefe de uma das famílias que seriam obrigadas a deixar a terra onde viviam (…) abraçou uma castanheira e desandou a chorar. Tentava me explicar por que ele não podia ser – sem ser ali. Ou a impossibilidade de habitar um mundo sem aquela árvore específica. De repente, o choro estancou e sua voz se encheu de raiva: ‘Fico revoltado quando Dilma diz que somos pobres. Por que ela pensa que somos pobres? De onde ela tira isso? Essa é a maior mentira’”.
Numa outra frente, que não a da desqualificação do adversário, o PT saiu correndo em busca das interlocuções do governo Lula que a gestão Dilma havia perdido. A principal provavelmente foi a escalação do ex-ministro e sucessor de Gil, Juca Ferreira, para coordenar (a um mês do fim da votação) o programa de governo na área cultural.
É uma guinada notável. No começo do mandato, Dilma havia inventado uma ministra, Ana de Hollanda, que se aliou ao ECAD e atrasou em várias décadas as formulações do governo federal sobre cultura, tecnologia, autoria etc, jogando a discussão para meados do século passado.
Agora Ana de Hollanda reagiu à indicação de Juca com uma nota indignada, acusando-o de belicoso e de ter “pouca relação ou conhecimento da complexa realidade do mundo da cultura” (definição que cabe melhor na própria Ana). Ou seja, mesmo quando acerta, o PT o faz tarde demais, porrazões suspeitas e expondo suas próprias contradições.
É por isso que a entrada de Marina em cena fez girar o triângulo estético (e ético) da disputa presidencial. Antes era a mulher Dilma contra dois caras fisicamente parecidos, os bochechas-rosadas-e-cabelinhos-com-gel Aécio e Eduardo Campos (mesmo que de perfis bem diferentes, respectivamente um playboy e um family man). Levava vantagem.
A parda Marina faz Dilma (que “tomou um banho de cimento”, nas palavras de um amigo meu) se igualar a Aécio: os crentes no marketing fetichista, os “produtos” da publicidade sagrada, os sacerdotes de um deus ausente.
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Sua excelência, o aparelho excretor

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Alguma coisa está fora da ordem quando a reta final do primeiro turno mais disputado das eleições presidenciais recentes no Brasil é sequestrada por… papo de fiofó. Levy Fidelix e sua declaração sobre o aparelho excretor não só tomaram de assalto as redes sociais, como hoje o candidato tem prazo para se explicar para o procurador geral da república. Rodrigo Janot prepara um procedimento atendendo a várias representações (OAB, Luciana Genro, Eduardo Jorge, Jean Wyllys, Renato Simões).
Obviamente Janot não está errado. Fidelix parece mesmo ter cometido um crime eleitoral. Misturou essa verdade central em sua fala (“o aparelho excretor não é reprodutivo”) com uma falha de nomenclatura biológica, um preconceito religioso avesso à realidade (a atividade sexual só serve para fins reprodutivos) e, esse é o crime, concluiu com incitação à perseguição e intolerância.
Além da tirada do aparelho excretor, Fidelix disse, e disse muito a sério, que “nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria (gay)”, e que “o mais importante é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá”.
Sugeriu que sua visão sobre sexo é moralmente superior às outras (não há maiores problemas nele estar convencido disso, e nem há nada que se possa fazer a respeito). Mas, e aí sim temos um problema, sugeriu também que está disposto a reunir gente para perseguir, constranger e agredir outras visões que não a sua.
Supostamente o procurador geral da república teria coisa melhor a fazer do que enfrentar candidatos folclóricos. Acontece que o folclórico Fidelix, o homem do aerotrem, revelou-se pelo menos em tese um fascista, um inimigo do sistema democrático. O termo fascista não é empregado aqui como xingamento, nem com exagero. Vejamos.
O fascismo pode ser definido como um sistema político autoritário e repressivo, baseado numa ditadura da maioria através do partido que a represente. Com desprezo total pela democracia e pelas tolerâncias políticas, sociais e comportamentais. Não é uma mera questão de “opinião” – é que, concretamente, Fidelix (e ele não é o único a pensar assim) propõe que a maioria (supostamente antigay) afaste os “desviantes” de seu convívio, e os combata (proíba? prenda? mate?). Se nada nem ninguém obriga Fidelix a ser gay, ele também não pode querer impedir ninguém de sê-lo.
O erro lógico, biológico e social de Fidelix se dá em três camadas. Parte de uma declaração incontestável: “o aparelho excretor não é reprodutor”. Não é mesmo. Há um erro nessa frase, mas é outro – o ânus não faz parte do sistema excretor, mas do sistema digestivo. A questão é que Fidelix vai para uma tentativa de silogismo usando uma segunda premissa falsa – e a conclusão é ameaçadora.
Silogismo, segundo Aristóteles, é uma argumentação lógica em três passos, que tem um exemplo clássico: ”Todo homem é mortal/ Sócrates é homem/ Sócrates é mortal”. Acontece que a segunda premissa (não enunciada) de Fidelix é “todo sexo é praticado para fins reprodutivos”. E não é.
Eu arriscaria dizer que, ao contrário, a maioria absoluta dos atos sexuais é praticada para o prazer – sendo que boa parte das gravidezes inclusive são acidentais (o que torna o aborto um corolário perfeitamente aceitável, visto que o sexo prazeroso não deve ser “punido” com uma responsabilidade acidental e inesperada, mas isso já é outro ponto).
O pior vem na conclusão. Por “antinatural”, segundo Fidelix, o uso do aparelho “errado” com outros fins tem que não apenas ser tratado, mas segregado (“bem longe da gente, porque aqui não dá”) e oprimido (“nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria”). Essa “maioria” que Fidelix convoca sequer é maioria – ou a sociedade não praticaria o sexo prazeroso e não-reprodutivo com essa frequência enorme.
No momento em que você lê esse texto, leitor, dezenas de milhões de seres humanos, numa estimativa comedida, estão fazendo sexo legal não-reprodutivo. O que põe por terra a tentativa de “silogismo fidélico”: “o aparelho excretor (digestivo) não é reprodutor/ todo sexo é para reprodução/ o sexo anal é inaceitável”. Lembrando que a fala de Fidelix ainda supõe que todo gay faça sexo anal, e ainda teve o penduricalho do papa (“eu vi agora o papa expurgar do Vaticano um pedófilo”), sugerindo que gay e pedófilo é a mesma coisa.
É assim que chegamos ao nazismo. Aparentado com o fascismo, o nazismo afirmava com ainda mais ênfase que os “inferiores” e “parasitas sociais” deveriam ser combatidos. Sua forma de mobilização e dominação política passava por enunciar um inimigo principal (o povo judeu) e vários secundários (gays, ciganos, eslavos, socialistas, artistas de estéticas “degeneradas”, ideólogos e religiosos tolerantes).
E propunha formas práticas de opressão, chegando finalmente à assim chamada solução final, o assassinato de massas nos campos de concentração. O que difere Hitler de Fidelix? Os bigodes e as idéias são igualmente bizarros (apesar do aerotrem ser bastante mais modesto que as pretensões tecnológicas nazistas). Os seus partidos surgem marginais à sociedade de sua época. Mas aí há uma diferença notável.
Ninguém nunca achou que Fidelix e seu partido fossem “para valer” – nem ele mesmo. Partidos e candidatos nanicos não são ilegítimos. Pelo contrário, as candidaturas de Eduardo Jorge e Luciana Genro (essa apesar do ideário marxista datadão) foram nessa campanha um dos fatores mais politicamente saudáveis.
Escaparam do circuito de meias-verdades e mentiras inteiras que assolou o marketing das candidaturas ditas principais, e arejaram um pouco o debate de idéias. A declaração bombástica e inesperada de Fidelix (provavelmente tentando surfar o eleitorado moralista neopentecostal) partiu exatamente de uma pergunta-provocação de Luciana, sobre a questão dos direitos dos casais gays, no debate da tv Record.
Só que Fidelix, além de nanico, é de um partido “fisiológico”. O termo é um apelido dado aos partidos e candidatos “profissionais” que parasitam o imperfeito sistema político brasileiro, tungando grana do fundo partidário (no caso do PRTB de Fidelix foi quase 1 milhão só de janeiro a setembro deste ano, mais de 6 milhões desde 1996) e alugando seu tempo e suas legendas com objetivos não-ideológicos, oportunistas. A piada fica ainda mais sem graça.
Uma espécie de mistura de Hitler com Tiririca, Levy Fidelix não apenas não é o ombudsman do fiofó alheio. Fisiologicamente falando, ele É o parasita, o habitante da flora intestinal do aparelho “excretor” da política nacional. Quando tenta tomar o centro do sistema, provoca a diarréia ideológica.
E o médico no caso é o procurador geral, que disse: “ser contra homossexuais, ou contra a união entre eles, é uma opinião protegida pelo direito à liberdade de expressão. (Mas) a fala de Fidelix é um ‘convite à intolerância e à discriminação, permitindo, em princípio, sua caracterização como discurso mobilizador de ódio’”. O ex-folclórico Fidelix comprou uma pauta moralista, e está pagando caro por ela.
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O desserviço final do PT ao Brasil

Se você acha que o PT só prestou desserviços ao Brasil, não se dê ao trabalho de ler. O ponto deste texto é exatamente o oposto: o de que só agora, precisamente no dia 5 de outubro de 2014, a balança de bons e maus serviços finalmente pesou contra o PT.
Há já longos 12 anos, a primeira eleição de Lula, cheia de simbolismo, representou uma virada (ou um início de virada) no psiquismo perverso da nossa sociedade. Costumo dizer que no Brasil convivem (e disputam) dois projetos de sociedade, o branco e o “pardo”.
E não há uma conversa clara entre eles, que costumam ter prioridades e modos bastante diferentes, e mutuamente incompreensíveis e excludentes. Na verdade não há conversa alguma. A eleição de Lula fechou um pouquinho esse fosso, estendeu pontes. Provavelmente a grande habilidade de Lula tenha sido entender não a parte mais tribal e horizontal da sociedade (da qual, afinal, ele provém).
Mas exatamente o oposto: Lula foi o líder de extração popular (o primeiro a chegar à presidência) a entender as angústias e descompensações da nossa mal-formada (e mesmo deformada) elite. Com seu carisma e aval popular e simbólico, Lula realizou serviços impopulares (diria “impopulistas”) na economia, usando ferramentas da ortodoxia de mercado.
O equilíbrio e prosperidade que obteve, ele reinvestiu em programas de inclusão, bastante bem sucedidos (inclusive no sentido de criar uma dinâmica econômica saudável). Essa é a parte boa. O primeiro grande problema é que Lula passou a pensar em si mesmo como um líder “mágico” e infalível.
Não sou, absolutamente, inimigo da irracionalidade. Acredito em magia política – que, se chamarmos de “memética”, explica como grandes quantidades de energia psicossocial podem ser movidas, para transformar um país e se possível aproximá-lo de sua essência (sim, eu acredito que um país tem uma “essência”).
A do Brasil, no caso, é aquela chavinha macunaímica que nos mantém o tempo todo atados à genialidade e à mesquinharia mais absoluta; à generosidade e à miséria mais cruel. Como sabem os artistas, os neurocientistas e os argumentadores sutis, a distância entre os grandes acertos e os erros catastróficos é mínima, e o mais brilhante sucesso nunca se presta à analise moralista e linear.
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Lula começou a errar quando escolheu Dilma. Não estava errado em imaginar uma mulher para sucedê-lo. Mas errou em enxergar esse equilíbrio entre pulso firme e inteligência emocional em Dilma. Como supostamente disse José Dirceu, era Marina o Lula de saias - ou, melhor ainda, o pós-Lula. Dilma é só o pulso firme.
O problema (para o país, mais do que para a própria Marina) é que as qualidades dela se parecem muito com defeitos, vistas com má vontade e preconceito, de uma lógica simplória e linear. Na verdade, a compreensão de Marina sobre os problemas brasileiros deriva do fato de que a confusão nacional começa DENTRO dela.
É o contrário do que esperamos desse ilusório político salvador. Ele, que entende de tudo (e isso é SEMPRE mentira; a boa política tem muito mais a ver com intuição e com saber se cercar dos colaboradores certos); ele, que brande números complexos com segurança fingida, é simplesmente uma síntese da nossa frustração com o fato de que não há uma saída líquida e certa para nada. O que há são tentativas, e o que nos resta é estar íntegro dentro delas, e pronto para a autocrítica e a correção desassombrada. E Dilma encarnou a “ele”, o salvador ilusório.
As incertezas, as inconsistências, os paradoxos de Marina são sua lucidez, sua sinceridade, sua coragem de mulher nascida pobre e negra, no meio da mata. Era ela o passo além de Lula, na direção do país que nos interessa.
Ao invés disso, Lula e o PT resolveram retirar seus créditos na forma de arrogância, chantagem e terror eleitoreiros. A ex-petista cujo projeto o PT deveria ter tratado com mais carinho, fraternidade e elegância (e inteligência política inclusive) foi tratada a pontapés. E acordar os demônios políticos a pontapés certamente não foi uma boa escolha. Foi uma escolha de fraqueza, não de força.
A posição de Marina já era delicada. Não por ela ser “indecisa”, como o PT afirmou. Mas por ter um discurso menos linear e mais difícil de sustentar e explicar. O PT descarregou todo seu arsenal de imprecisões, exageros e inverdades numa ex-companheira, uma ex-ministra de Lula. O efeito, além de ser politicamente emburrecedor, pode ser eleitoralmente burro.
O que o PT conseguiu, por enquanto, foi trazer um Aécio que já esteve rendido de volta, seguro, motivado e na ascendente. Perdeu-se a oportunidade histórica de ter no segundo turno duas mulheres, de um campo político socialmente mais generoso, no que seriam as eleições mais bonitas e politicamente qualificadas de toda a história do país.
Ao contrário, o PT resolveu provocar os piores instintos do eleitorado, mobilizar a ignorância e a imaturidade políticas da nação (essa mesma que, para falar só de São Paulo e das primeiras colocações, elege Russomanno, Bolsonaro, Maluf e Tiririca. Ou que reforça o grande percentual de votos nulos, brancos e abstenções). Era nesse sentido que Marina era o passo seguinte após Lula: o de trazer mais gente, para quem o coquetel sindicalista-católico-marxista do PT é incompreensível, senão inaceitável, para a conversa.
Ou quem simplesmente já enjoou do sistema como um todo. Esse paradoxo já estava presente nos protestos de junho de 2013. Ao escolher “derrotar” junho, junto com gente como Alckmin e “Cabrão” (Cabral + Pezão), ao invés de depurá-lo, o PT faz uma manobra arrogante e impensada, talvez suicida. O que a enorme transferência de votos de Marina para Aécio instantes antes da votação demonstra é óbvio.
Que, para um monte de gente, a prioridade é simplesmente barrar o PT. O PT “escolheu” Aécio ao invés de Marina. E, ao evitar lidar com uma figura híbrida cujo programa tinha traços neoliberais, mas cuja prática está enraizada nas camadas mais sofridas e solidárias da sociedade, o PT escolhe um Brasil conflagrado, venezualizado, o do “eles contra nós” (falsos eles contra falsos nós, pondo o barco de todos em risco).
Mais do que isso, o PT mentiu loucamente. Mentiu sobre a conveniência de se acreditar cegamente no petróleo do pré-sal, e do próprio petróleo como combustível prioritário; mentiu sobre Neca Setubal (na verdade Neca é tudo o que o Brasil precisa: gente egressa da elite econômica que simpatize com o ativismo social); mentiu até na semântica, ao negar que líderes como Chico Mendes constituem, sim, uma nova elite política crítica e necessária.
O PT fez escolhas políticas patriarcais, para quem gosta dos modos do patriarcado: apelo ao medo, à violência psicossocial, à manipulação. Confesso que, “enquanto comédia de erros”, acho engraçado o PT levar esse Aécio redivivo para o segundo turno. Será ainda mais engraçado se Aécio ganhar.  Não deixa de ser uma demonstração bizarra de tudo que Marina tentou ensinar que tínhamos que evitar. O PT escolheu dar razão a quem acha que o PT é o maior problema do Brasil. Agora é, finalmente.
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